Depoimento de Alexandre Amaral

“E aí garrotão, como vai?”. Era assim que Bamba me saudava quando entrava em sala de aula ou nos encontrávamos pelo campus de Ondina. E entre uma fala embolada aqui e outra embolada ali a gente ia se entendendo. Às vezes era bem verdade que ele engasgava tentando falar uma palavra que não saía de jeito nenhum e a sala toda caía na gargalhada. E sua fala doce e pausada tomava conta de novo do ambiente, e nossos olhos todos brilhavam com suas ideias. Sem querer falar da boca pra fora, foi um dos poucos professores que conheci e que mudaram minha forma de pensar na universidade, verdadeiramente. Então, entre as lembranças de sua presença e a ausência de seus bordões, sou eternamente grato. Obrigado, meu amigo, pelos breves e intensos momentos. Beijos no coração do “garrotão carioca” que sempre vai ter você no coração.

Alexandre Amaral

Depoimento de Jusciele Oliveira

Mademoiselle. Penso que nunca mais irei escutar essa palavra da língua francesa com tanta doçura, mas também com muita ironia e frieza. Explico-me. O professor Bamba (como eu insistia em chamá-lo e ele insistia para que não usasse de tanta formalidade) chamava-me assim quando nos encontrávamos. Achava tão lindo, tão educado, tão charmosa essa palavra, quando aquele homem que encantava pela educação, gentileza, inteligência e, é claro, beleza física, pronunciava-a. Até que um dia, na sala de aula, eu escutei Mademoiselle seguido de você… “Mademoiselle, você é muito crítica”. Claro que fiquei chateada, mas depois daquela primeira frase eu nunca mais tive sossego virtualmente pelo Facebook e e-mail, ou pessoalmente na sala de aula, nas orientações ou em eventos, pois era provocada pelo Prof Bamba a participar e também comentar questões, opiniões e discussões sobre cinema, África, cinemas africanos, feminismo, qualquer assunto que ele julgasse provocador. Eu agora vivia sob constante provocação do Prof Bamba. Contudo, isso não tornou nossos encontros tensos ou bélicos – pelo contrário era instigante e interessante estar sempre pronta para ser provocada. Por isso, quando na manhã do dia 16 de novembro, pelo Facebook, descobri que Prof Bamba tinha morrido foi uma notícia muito trágica. Não só porque eu estava longe. Morava em Lisboa naquele ano, por conta do meu doutorado, do qual ele faz (não consigo falar dele no passado) parte, não só como orientador, crítico e incentivador, mas também como intelectual e teórico dos cinemas africanos. E também, por não estar em Salvador para participar dos rituais fúnebres, a sua despedida, para te dizer adeus. Eu queria estar em Salvador, terra que ele tanto ama… Lembro-me quando pedi o número do CPF dele para cumprir os trâmites burocráticos da minha defesa de mestrado e ele me respondeu dizendo que agora era o número do CPF dele oficial como baiano. Tinha tanto orgulho em ser baiano com sotaque francês (risos)… Eu só posso também sentir muito orgulho de ter convivido com uma pessoa tão carismática, tão gentil, tão educada, tão brilhante, que me proporcionou conversas e leituras excepcionais, que me provocou e até hoje me provoca, através dos seus inúmeros textos e livros, a refletir sobre arte, cinema, cinemas africanos… Obrigada também por ter me deixado como herança, além do legado intelectual, as inúmeras novas amizades que surgiram depois da sua partida. Au revoir, Monsieur Bamba!

Por Mademoiselle Jusciele Oliveira

Depoimento de Christel Duchemin

Eu encontrei Maho a terceira vez que eu cheguei em Salvador! Foi uma aluna em jornalismo, Ximena, que me falou dele: “O Professor Mahomed não é francês, mas ele fala francês muito bem! Ele é da Costa do Marfim!”. Foi como se a gente já se conhecesse de uma outra vida, sabe, aquela pessoa com quem você já se sente bem do primeiro contato. Talvez, porque nascemos no mesmo ano! (Risos) Maho foi um guia maravilhoso da cidade de Salvador e do litoral norte, me apaixonei por Imbassaí! Acho que ele gostava do Brasil, como se tivesse nascido nessa terra! Ele amava o Brasil! Quase em todos lugares que Maho me levou, encontrávamos colegas e alunos, que sempre estavam muito felizes em abraçar aquele professor tão bom e gentil com todo mundo. Maho era uma pessoa tranquila, humilde, simples, educada, equilibrada e gostava de adjudar. Gostava de conversar, de fazer fotos, de comer banana, mamão papaia, amendoins cozidos, açaí, e de vez em quando de beber uma caipirinha de seriguelas! Apaixonado por cinema, literatura, artes  do mundo em geral. Acho que ele amava o ser humano e sua complexidade! Maho me apresentou o Circuito de Cinema Sala de Arte com muitos filmes em francês. Foi muito bom assistir para entender melhor o português com os subtítulos (legendas)! Eu não gostava de falar português na frente dele porque eu não falava muito bem! Ele estava feliz de poder falar francês comigo! Nós ficamos muito amigos durante todos os anos que eu viajei da França ao Brasil! Quando chegava, ligava para ele e gostávamos de ir na Avenida Oceânica beber uma água de cocô, andando e fazendo fotos! Maho me contou que escolheu o Brasil para acabar os estudos dele, por causa do jeito da sua professora de português falar: “Mais uma vez!” para fazer repetir as palavras aos alunos! Acredito que o encontro de Maho com o Brasil foi uma grande história de amor! Creio que foi uma história de amor também com o cinema, que mostra de um jeito artístico a vida dos seres humanos e tudo que somos! E talvez, para ele, se concentrar sobre o cinema africano era um jeito de manter à ligação com a origem dele! Acho que a paixão que ele tinha pelo cinema africano foi o que deu para ele uma grande satisfação na vida, e talvez por isso que ele queria compartilhar em todas as formas com o máximo de pessoas aquela paixão! Maho, você ficará para sempre bem protegido dentro do meu coração!

CHRISTEL DUCHEMIN

Depoimento de Ari Lima

Que lindo e comovente esta homenagem a Mahomed Bamba. Curiosamente, quando me deparei com ela, ouvia mais uma vez a canção “Um corpo no Mundo” de Luedji Luna, que eu chamo de “Je suis ici”, de fato o verso refrão… Eu conheci e convivi muito pouco com Bamba na FTC. Depois disso, o convidei para uma participação em um curso que ministrei no qual falava sobre racismo, negritude e descolonização. Ele atuou como esperava. Foi límpido, instigante e luminoso. Bamba me impressionou desde o primeiro momento pela beleza, pela gesto elegante, pela firmeza das ideias, pelo sotaque afrancesado e, mais uma vez por me chamar atenção, a uma atitude que costuma ser comum em negros africanos e diaspóricos que não evidenciam imediatamente no corpo, no gesto e na consciência o peso do exílio do tráfico negreiro, da escravidão e do persistente racismo à brasileira. Além disso, ao contrário do que costuma acontecer com outros negros em mesma posição social rara que eu ocupo, ele também não demonstrou incômodo, insegurança ou desprezo pelo meu pensamento racializado e anti-racista. Ele faz falta! Bela Homenagem!

Ari Lima