MAHOMED BAMBA

Mahomed Bamba nasceu na Costa do Marfim (Côte d’ Ivoire) em 23 de dezembro de 1966. Viveu sua infância e adolescência em seu país de origem, mas o destino lhe trouxe ao Brasil, terra que ele tanto amava, onde viveu mais de 20 anos cercado pelos livros e pelos filmes. Um homem de inteligência admirável, que venceu os obstáculos da vida através dos estudos, provando aos outros que com disciplina e determinação podemos alcançar nossos objetivos.

Graduou-se em Letras e Literatura pela Université Nationale d’ Abidjan.  A relação de Mahomed Bamba com a língua francesa deu-se na infância, como um cidadão de um país francófono, a língua francesa tornou-se mais que um legado colonial, é parte da cultura sociolinguística de todos os países africanos que foram colonizados pela França. O francês  tornou-se a língua do saber e da abertura para o mundo.  Antes da sua alfabetização ele usou esta língua para comunicar-se com outras crianças. Entrou no lycée e optou por uma especialização em Letras, como costuma acontecer no modelo de educação francês.  Depois do seu baccalauréat “Série A”, entrou no faculdade de Letras, Artes e Ciências Humanas da Université Nationale d’ Abidjan (FLACH) onde cursou estudos literários e de língua estrangeira (espanhol).  Durante este curso, aprendeu a língua e sobre a civilização brasileiras, o que permitiu seu interesse pela literatura espanhola e brasileira, que o instigou a fazer um trabalho de investigação comparativa entre as duas estruturas das línguas francesa e portuguesa (do Brasil).

Em 1993 ingressou no curso de mestrado em Linguística Geral e Semiótica pela Faculdade de Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP). No projeto de pesquisa de mestrado analisou as relações intersemióticas entre as variantes de língua escrita e da língua falada no universo fílmico, especificamente na tradução de filmes em legendas.

Esse primeiro contato com o campo cinematográfico pelo viés linguístico e da semiótica destertou o interesse de Mahomed Bamba pela pesquisa no universo fílmico. Os conceitos teóricos sobre o cinema interviram de forma parcial e indireta em sua pesquisa de mestrado, mas foi no doutorado que a própria linguagem cinematográfica tornou-se objeto central de sua investigação.

Em 1999 foi convidado pelo SENAC de São Paulo para dar aulas de francês. Essa experiência permitiu-lhe o aprimoramento com o seu próprio conhecimento da língua, bem como com as questões metodológicas. No SENAC ele pôde fazer uso de seus conhecimentos teóricos em cinema, associando de forma lúdica e instigante o conteúdo do material audiovisual em situações de uso da língua. E foi a partir dessa experiência que surgiu o interesse em estudar profundamente a interação entre o contexto de ensino e aprendizagem e o uso de filmes e material audiovisual, que o levou a desenvolver uma pesquisa sobre a temática.

Entre 1999 e 2001 ele desenvolveu seu projeto de doutorado na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. Na sua tese de doutorado: “O Legível e o Visível no Cinema – O Signo Escrito na Construção e na Leitura Fílmicas”, publicada em 2014 pela editora Appris, Mahomed Bamba afirma:

O objeto principal desse livro é propor, de um lado, uma reflexão teórica geral sobre a importância estética e semiólogica da dimensão verbo-icônica na figuração cinematográfica e por outro, analisar as funções narrativas, discursiva, enunciativa e plástica que completam a exibição de palavras escritas e de diversos tipos de objetos e suportes de comunicação escrita no espaço fílmico.  (BAMBA, 2014)

Depois do doutorado, Mahomed Bamba enveredou-se para docência e para pesquisa. Em São Paulo trabalhou em duas instituições de ensino superior a: UNISANTANA e a Universidade Municipal de São Caetano. Lecionou disciplinas relacionadas às áreas de comunicação, linguagem do rádio e análise de imagem e a semiótica.

Em 2003 começou a dedicar-se ao ensino de cinema e audiovisual quando foi convidado pelo curso de Cinema e Vídeo da Faculdade de Tecnologia e Ciência (FTC – Salvador). Passou a viver em Salvador e lecionou 4 anos nessa instituição disciplinas ligadas à teoria, história e estética do cinema, do vídeo e da comunicação em geral. Para ele foi uma experiência decisiva, pois o contato com a sala de aula e com os alunos serviu para consolidar os conhecimentos acumulados ao longo dos anos de pós-graduação. Além da FTC, Mahomed Bamba foi professor da Faculdade Integrada da Bahia (FIB) e Faculdade 2 de Julho. Nessas instituições lecionou disciplinas como Teoria da Comunicação, História da Comunicação e Semiótica Aplicada, buscando relacioná-las com uma atividade analítica voltada para as linguagens midiáticas e dos objetos fílmicos.

Em 2006 passou a ser professor visitante da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) no departamento de Letras e Artes. Paralelamente a sua atuação como professor na graduação, foi convidado no primeiro semestre de 2008 a ministrar uma disciplina no Programa de Mestrado em Literatura e Diversidade Cultural, ministrando a disciplina “Estudo Comparado do Orientalismo e do Africanismo no Cinema”. A intenção dessa disciplina era realicionar o Orientalismo com o Africanismo, era conceber os dois campos como práticas discursivas e processo de conhecimento “científico”, bem como modalidade de representação visual, pictórico, literário que o ocidente mantém com relação aos povos no “oriente” e no sul do Saara. A partir dessas premissas, a disciplina tangenciava problematizar as relações entre a representação cinematógrafica e o orientalismo e africanismo moderno e contemporâneo e seu corolário que é a figuração da alteridade e da diferença no cinema. Mahomed Bamba também ministrou a disciplina de Teoria do Cinema no curso de Pós-Graduação – “Especialização em Cinema: Expressões e Análise” da Universidade Católica de Salvador (UCSAL).

Além de suas atividades docentes, Mahomed Bamba desenvolveu atividades administrativas na UEFS, como coordenador das atividades do NEF (Centro de Estudos Francófonos), que funcionava conjuntamente com o NEC (Núcleo de Estudos Canadenses). Membro ativo da SOCINE (Sociedade Brasileira de Cinema), da INTERCOM (Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares de Comunicação) e da ABRALIC (Associação Brasileira de Literatura Comparada). Participou regularmente dos encontros e congressos destas entidades, onde teve a oportunidade de apresentar trabalhos desenvolvidos paralelamente sobre a recepção cinematógrafica e sobre o cinema africano e o cinema diaspórico.

Na SOCINE ele encontrou um espaço privilegiado para expor e discutir o resultado de suas pesquisas sobre Cinema e Audiovisual, apresentando diversas comunicações com foco na recepção e as atitudes espectatoriais no cinema. Na ABRALIC de 2008 submeteu um trabalho sobre as relações entre o campo cinematográfico e o fenômeno migratório, mais especificamente no cinema contemporâneo brasileiro, “Migração, imigração e alteridade no cinema brasileiro contemporâneo”. Em 2007 apresentou uma comunicação sobre literatura e cinema africano  no III Encontro de Professores de Literatura Africanas: Pensando África-Crítica, ensino e pesquisa, promovido pela UFRJ, FBN e UFF. Em 2004 apresentou na SOCINE o trabalho “Proposta para uma abordagem crítica do trailer”. No encontro de 2005 da SOCINE, ele buscou circunscrever os contornos da recepção dos filmes africanos no Brasil, e mais especificamente na Bahia. Partiu do pressuposto que os filmes africanos, mesmo ausentes das salas de cinema, não deixavam de ser objetos de uma utilização cinéfila nos quatro cantos do mundo. No Festival Pan-Africano de Salvador, observava-se um caso de recepção e leitura cultural e étnica desses filmes. Em 2006 apresentou na SOCINE uma pesquisa que ainda estava em curso na época: “O impacto da conversação linguística na recepção fílmica: entre a mediação e apropriação simbólica”. No I Encontro Nacional de Estudos da Imagem em Londrina-Paraná apresentou um trabalhado intitulado de “Das imagens sobre África às Imagens da África”, resultado de uma reflexão sobre o cinema africano. O interesse sobre o cinema africano encontrou mais espaço de discussão no VI Seminário da Francofonia organizado pelos Centros de Estudos Canadenses e Francófonos da UEFS. Onde foi possível discutir questões do dever de memória sucessivamente nas literaturas e nas cinematografias africanas.

O interesse pelo cinema africano e pela problemática da recepção dos filmes africanos ganhou outra ressonância em sua vida, quando aceitou o convite de participar da organização de um livro sobre o “cinema no mundo”. Esta coletânea com 5 volumes tinha como foco temático a indústria, a política e o mercado cinematográfico. Mahomed Bamba elaborou a introdução do primeiro volume (dedicado ao cinema africano) e escreveu o texto “O papel dos festivais na recepção e divulgação dos cinemas africanos”, que também compõe o livro.

Como orientador em cursos de graduação e pós-graduação procurou sempre orientar os estudantes no sentido de aguçar o senso de observação e mostrar também a realização de um produto audiovisual nunca abdicando de uma reflexão teórica sobre o objeto abordado.  Quando trabalhou na FTC liderou um grupo de pesquisa sobre cinema e vídeo, cadastrado no portal de grupos de pesquisa do CNPQ. Entre 2005 e 2006 orientou um projeto de pesquisa de iniciação científica sobre “O Cinema nas Práticas do Ensino Médio da Rede Pública do Estado da Bahia”. Orientou projetos de pesquisas no Centro Universitário da FIB (Faculdade Integrada da Bahia) e foi orientador e monitor de projetos de pesquisa na na Universidade Federal de Feira de Santana (UEFS ).

Em 2009 passou em 1° lugar no concurso para professor de Cinema e Audiovisual – Teoria, História e Linguagem do Cinema da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia. Tornou-se professor adjunto da Faculdade de Comunicação da UFBA e pesquisador credenciado no programa de Pós-Graduação em Comunicação e Culturas Contemporâneas (PósCom-FACOM-UFBA). Foi um dos coordenadores do GRIM – Grupo de Pesquisa em Recepção e Crítica da Imagem, coordenou também o Seminário Temático de Recepção e Espectatorialidade na SOCINE. Publicou artigos sobre a temática da recepção cinematógrafica e audiovisual. Escreveu capítulos para livros coletivos sobre cinema africano e organizou o livro “A recepção Cinematógrafica: estudos de casos” (Edufba, 2013), foi co-organizador do livro “Filmes da África e da Diáspora” (Edufba, 2012). Em 2014 fez pós-doutorado nos Estados Unidos pela Michigan State University.

Em fevereiro de 2015, Mahomed Bamba voltou ao Brasil depois de concluir o pós-doutorado nos Estados Unidos, voltou a ministrar suas aulas e desenvolver suas pesquisas na Faculdade de Comunicação da UFBA. Em maio de 2015 em exames de rotina deparou-se com um problema de saúde. Os médicos começaram a investigar e depois de vários exames chegaram a conclusão de um provável colangiocarcinoma, um tumor nas vias biliares. Durante um procedimento médico necessário, Mahomed sofreu uma infecção que generalizou e o levou a morte em 12 dias.

No dia 16 de novembro de 2015 as 00h23, na cidade do Salvador, Mahamed Bamba partiu para um plano superior deixando todos que conviveram com ele órfãos de seu sorriso e alegria. O mundo acadêmico perdeu um expoente nos estudos teóricos do cinema e nós que tanto o admirávamos e o amávamos perdemos um grande amigo e amor.